Museu do Fado
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Personalidades
 
Óscar Cardoso
( 1960 )
Óscar Manuel Barbedo Cardoso nasceu em 1960 e tem trabalhado no restauro e construção de instrumentos de corda desde há 35 anos. Em 1990 começou a construir instrumentos. É “Guitarreiro”. Chegou a esta actividade por influência do pai, o construtor Manuel Cardoso, cuja oficina, no Casal do Privilégio em Odivelas, hoje ocupa. Teria cerca de oito anos quando começou a procurar na oficina do pai os brinquedos que desejava: ferramentas.

Óscar Manuel Barbedo Cardoso nasceu em 1960 e tem trabalhado no restauro e construção de instrumentos de corda desde há 35 anos. Em 1990 começou a construir instrumentos. É “Guitarreiro”. Chegou a esta actividade por influência do pai, o construtor Manuel Cardoso, cuja oficina, no Casal do Privilégio em Odivelas, hoje ocupa. Teria cerca de oito anos quando começou a procurar na oficina do pai os brinquedos que desejava: ferramentas.

Óscar Cardoso começou por desempenhar pequenas tarefas, as que exigiam menos precisão, mais força, menos experiência e conhecimentos específicos como era o corte da madeira. Mas, tal como o pai, vivia num constante estado de inquietação. Tal como o pai, nada parecia ser inútil, todas as técnicas, todas as experiências, todos os materiais, todas as tentativas, todos os erros eram determinantes para a aprendizagem e para melhorar a sua prática. Desde cedo, o guitarreiro “tinha coisas malucas na cabeça para fazer!” e o pai ria-se perante as propostas que pareciam delirantes. Com o tempo a perspectiva do mestre mudou, perante a notória habilidade do filho, ao verificar a sua capacidade criativa, a sua apetência para inventar instrumentos, imaginar processos de construção inusitados, empregar novos materiais, sempre com resultados surpreendentes, Manuel Cardoso passou a dar todo o apoio a estas experiências.

Mas durante muitos anos Óscar Cardoso limitou-se a serrar, aplainar, afinar ferramentas. Depois passou a fazer reparações e reconstruções de todo o tipo de instrumentos, de violinos a guitarras portuguesas passando por alaúdes. Passou anos a fazer reparações. Só quando os seus gestos ganharam consistência e consequência passou a fazer violas, um instrumento mais fácil de construir, cuja técnica de fabrico é menos complexa e exigente do que a necessária à construção de guitarras portuguesas. Quando já tinha a mão adaptada aos materiais e aos processos, começou a fazer guitarras, mas só construindo a sua caixa de ressonância pois os braços eram ainda feitos pelo seu pai. O último passo no processo de aprendizagem começou quando Óscar passou a colocar braços.

Para reforçar a sua formação e correspondendo a um “desejo de ver o mundo”, em 1986, com uma bolsa da Secretaria de Estado da Cultura, ingressou na Scuola Internationale de Liuteria de Cremona, e sem o saber, começou a percorrer os mesmos passos que o mestre do seu pai, 60 anos antes, havia dado. Naquela prestigiada instituição, famosa pela mitificação do nome dos construtores de violinos provenientes dessa cidade italiana, aprendeu “bastante teoria”, mas na prática… “não aprendeu nada”. Descobriu que o método que utilizava, essa tradição de Álvaro da Silveira, era a tradição italiana, descobriu que aquilo que sabia por experiência e que havia aprendido com o seu pai era o que aquela escola ensinava, aprendeu que havia nomes para aquilo que fazia todos os dias, que tinha feito toda a vida: aprendeu teoria sobre vernizes, sobre as madeiras, aprendeu botânica, aprendeu elementos de física dos materiais (a “resistência à torção, a elasticidade das madeiras”, exemplifica), tudo coisas que o pai lhe havia transmitido e que o próprio Óscar já havia interiorizado através da sua prática quotidiana na oficina e através da sua invulgar capacidade de ouvir o mundo. Apesar de redundante, esta experiência deu a Óscar Cardoso a confiança necessária para a sua arte e, pelo seu arrojo, permitir-se a inovações. Hoje baseia a sua prática naquilo que aprendeu com o pai, sabe que há uma razão que foi conceptualizada por alguém, mas quase não a usa.

Por sentir a completa redundância da informação ministrada no curso, passado três anos, numa altura em que o estado de saúde do seu pai se agravava, regressou a Portugal para assumir a responsabilidade pela produção da oficina ao mesmo tempo que o pai reduzia a sua actividade.

Por vezes, as suas “experiências” não passam disso mesmo, mas quase todas se tornaram inovações aplicadas aos seus instrumentos musicais e que nos ajudam a perceber melhor este guitarreiro, que se tornam indissociáveis da sua personalidade. A mais radical e estabilizada de todas as inovações decorre de um processo que teve início em 1995 com os primeiros instrumentos sem fundo. Esses instrumentos deram ao construtor uma visão diferente, provocaram uma nova abordagem à construção de cordofones e uma nova compreensão do funcionamento acústico dos instrumentos musicais que veio a afectar todo o trabalho de Óscar Cardoso, mesmo quando se trata de instrumentos “mais convencionais”.

Os seus clientes, quando confrontados com aqueles instrumentos de aspecto inusitado, após vencerem a inicial resistência perante a novidade, acabaram por integra-los e hoje, segundo Óscar Cardoso, “metade utiliza guitarras sem fundo, seja em concerto seja em gravações”.

É necessário sublinhar que a especificidade acústica dos instrumentos feitos por Óscar Cardoso não decorre unicamente da abertura posterior, mas antes de uma quantidade espantosa de outras soluções de construção, e da mútua afectação de cada uma delas, dos processos de construção aos pormenores estruturais e acabamentos da construção que criam o som distintivo dos seus instrumentos.

Independentemente do grau de inovação de qualquer dos seus instrumentos, o “perfil” das suas guitarras — “convencionais” ou não — são diferentes do das guitarras de outros construtores: o fundo é bastante abaulado, tal como o tampo. O taco do braço é completamente curvo, “parece a quilha de um barco aquela parte do taco”, criando uma ligação mais fluída entre o braço e a caixa de ressonância. O abaulado é o aspecto visível da tensão em que se encontra o tampo, tensão essencial para o som (quanto mais sob tensão das cordas estiverem os materiais, maior é a velocidade das vibrações nesses materiais, especialmente no tampo e melhor é o funcionamento da guitarra). Por outro lado, o aspecto da guitarra é também uma forma de expor a sua arte. As suas guitarras são muito semelhantes às de Álvaro da Silveira, até porque utiliza os mesmos moldes, mas a sua construção acentua as linhas arredondadas.

Hoje as suas guitarras e violas são tocadas por José Manuel Neto, Carlos Manuel Proença, Custódio Castelo, Mário Pacheco, Filipe Lucas, Edgar Nogueira, João Alvarez, Pedro Joía, José Peixoto, Arménio de Melo, Ângelo Freire, Diogo Clemente, Jaime Santos Júnior, César Silva, Bernardo Couto, numa lista imensa e sempre em crescimento.

Pedro Félix
Excerto do texto do catálogo da exposição “Óscar Cardoso – Guitarreiro”, Museu do Fado, 2011


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